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Domingo, 06/07/2008
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um líder rotulado como de esquerda, declarou mais de uma vez que a guerrilha colombiana deve depor as armas e entrar no jogo democrático. O mesmo disse o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, um simpatizante dos guerrilheiros.
O que propõem esses e outros líderes? Eles estão sinalizando que as Farc devem se inserir na política partidária da Colômbia e disputar eleições, o que já foi feito no passado. No início dos anos 80, durante negociações de paz com o governo conservador de Belisario Betancour, parte da guerrilha deixou a luta armada e fundou um partido, a União Patriótica. A legenda conseguiu eleger, em 1986, 14 congressistas, 18 deputados regionais, 335 conselheiros e um grande número de vereadores. Mas o sonho da pacificação acabou mal. Massacrados por grupos paramilitares de direita e pelo Exército, os ex-guerrilheiros voltaram às armas.
Para muitos analistas, em nenhuma hipótese se justifica a existência de uma guerrilha. Para outros, a guerrilha é imprescindível em países sob ditaduras sanguinárias. A luta armada, nesse caso, seria uma forma de impedir o genocídio comandado por ditadores. Populações de todo o mundo conhecem bem essa cruel realidade. E há ainda aqueles que validam as guerrilhas mesmo em nações que não estão sob o regime de ditaduras – defendem o direito de uma classe de se rebelar contra a tirania de outra classe.
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Os cerca de 8 mil guerrilheiros, todos filhos colombianos, muitos jovens, meninos e meninas ainda, merecem outro futuro que não a morte pelo Exército ou a escravidão ao narcotráfico. E a sociedade colombiana é merecedora de um outro país, não esse que conhecemos de assassinatos, seqüestros, desigualdade social injustificável e governantes corruptos. A grande maioria não partilha dessa disputa, no entanto sofre em decorrência dela.
As Farc não têm razão de existir. Mas a injusta sociedade colombiana precisa ser reinventada, para melhor. Falta aos líderes políticos e aos líderes guerrilheiros da Colômbia uma coisa tão simples: fraternidade.
Rodolfo Buhrer/Gazeta do Povo

“Havia se acostumado com o apelido de Mundinho e não se orgulhava do nome horrível.
- O seu nome não é horrível.
- Claro que é.
- O nome só é horrível se a gente quiser. Eu acho o meu lindo. Não queria que me chamassem de Nilda.
- Mas Bruna ficaria bem.
- Olha para mim. Tenho cara de Bruna?
Ele olhou um bom tempo e roubou-lhe um beijo.
- Nem cara nem gosto.
Então. Você vai ser Raimundo e ponto final.”
Trecho de Amor de Menino
Lançamento da Galera Record
Quem é
Miguel Sanches Neto nasceu em 1965, no Paraná. Colunista do Caderno G da Gazeta do Povo, escreve para vários jornais e revistas e dá aulas de literatura brasileira na UEPG. Já publicou, entre outros, os romances Chove sobre minha infância (2000) e Um amor anarquista (2005), as crônicas Herdando uma biblioteca (2004) e o infantil Estatutos de um novo mundo para as crianças (2005).
Roberto Custodio/Jornal de Londrina

Quem estiver em Curitiba hoje (terça) vale a pena ir até ao Porão Loquax. Estará lá o meu amigo, poeta, tradutor e compositor Rodrigo Garcia Lopes. Além de apresentar musicas novas, Rodrigo vai ler poemas inéditos. Também serão lançados os dois últimos números da revista Coyote. Acompanham Rodrigo (voz e violão), Rubens K (baixo) e Marcelo Chytchy (bateria). Local: Wonka Bar, Rua Trajano Reis, 326, 23 horas.
“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinqueta.”
Grande Sertão: Veredas

Considero desnecessárias certas comparações. É comparar o incomparável. Machado de Assis e Guimarães Rosa são universos distintos. E infinitos. Machado e Rosa são rios que correm para lugares diferentes e que, em muitos momentos, em suas curvas se aproximam.
Guimarães Rosa é o nosso regionalismo universal, aquilo que Fernando Pessoa falou do “rio que corre pela minha aldeia”. Rosa é o sertão, mire: “O sertão está em toda a parte”.
Muito se questiona como um menino nascido em Cordisburgo, interior de Minas Gerais, e criado naquele oco de mundo, colocaria a literatura brasileira em tão elevado patamar. A resposta pode ser “isso é a literatura”.
Nas obras que deixou, o escritor mineiro não reinventou a linguagem. Ele captou o falar de um Brasil profundo e deu a ele beleza. Como conseguiu essa inigualável criação? Vivendo e estudando, talvez responderia. Prova disso está em uma de suas declarações:
Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.
Guimarães Rosa nos legou ainda o ensinamento de que escritor, além de viver o que escreve, precisa pesquisar. Tanto que em determinado período em que passou no sertão, Rosa se informava sobre tudo, e anotava: flora, fauna e a gente sertaneja, usos, costumes, crenças, linguagem, superstições, versos, anedotas, canções, casos e estórias.
Uma vez, ele disse que gente não morre, encanta. Talvez estivesse falando da eternidade.
O ano do centenário do nascimento de Guimarães Rosa é um bom momento para se refletir sobre o poder criador da literatura brasileira.
Quanto a Machado de Assis, é assunto para outro dia.
*****
UMA VELA PARA DARIO

Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.
Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.
Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.
A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.
Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.
Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.
Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.
Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu na multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.
O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.
A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.
Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.
Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.
*****
Este texto faz parte dos 100 melhores contos brasileiros do século, seleção de Ítalo Moriconi para a Editora Objetiva. Extraído do livro Cemitério de Elefantes, 1964.
Pedro Serapio/Gazeta do Povo

Não se pode negar a importância da identificação de desvios profissionais em qualquer atividade, mas a "patrulha ideológica" pode causar danos irreparáveis a muitos profissionais.
Há algum tempo, o colunista da revista Veja Diogo Mainardi fez uma espécie de lista do que rotulou como jornalistas petistas. Entre os classificados como lulistas estavam Franklin Martins, na época funcionário da Globo, Ricardo Kotscho, que foi secretário de imprensa da Presidência da República, e Tereza Cruvinel, atual presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), criada por Lula.
Não há problema no fato de um ou uma jornalista decidir trabalhar para o governo. Faz parte do jogo democrático. O que é reprovável é atuar como jornalista na mídia em defesa desse ou daquele grupo político, corporação ou movimento.
Alguns colunistas, que posam de jornalistas na grande imprensa, não conseguem discernir jornalismo de ativismo político partidário. Mainardi e Arnaldo Jabor são os maiores exemplos. Exercem a crítica ao governo Lula, mas fecham os olhos, os ouvidos e outros sentidos para os escândalos envolvendo tucanos. Há casos extremos em que os dois elogiam abertamente Fernando Henrique Cardoso. O poeta Ferreira Gullar, que escreve aos domingos na Folha de S.Paulo, é outro simpatizante dos tucanos que só critica Lula. É amigo do governador José Serra (SP) desde o exílio, no Chile, na época da Ditadura.
André Coelho/Agência O Globo

Ainda bem. A crítica jornalística não deve excluir. Do contrário não é crítica, é texto panfletário.
Felipe Fortuna

Crime cometido por você contra você mesmo, infame! / Você acaba de matar o raio de luz de sua alma! / É a sua própria chama que você acaba de assoprar! / (...) Uma biblioteca é um ato de fé (...) / Então você esqueceu que o seu libertador / É o livro? (...)
Terminada a longa descompostura, em tom de sermão, o poeta que falou sobre a verdade, a virtude e o progresso permite que o delinqüente possa pronunciar uma única frase: “Eu não sei ler.” Subitamente, todo o poema se transforma numa composição irônica na qual a força moral do poeta torna-se oca diante do descaso da sociedade em relação a um analfabeto, que reagiu e se vingou a seu modo.
Por associação, lembrei-me do poema enquanto lia um ensaio perturbador, “Por Que Queimamos as Bibliotecas?”, que trata das violências sociais contra a cultura escrita. Seus autores são dois sociólogos franceses, Denis Merklen e Numa Murard, estudiosos dos recentes episódios de revolta popular que atingiram os subúrbios de Paris – e, especialmente, as bibliotecas de bairro. Eles explicam que, desde 2005, dezenas de bibliotecas foram atacadas e destruídas por moradores do lugar, e se perguntam qual seria o alvo nos casos em questão: uma instituição pública? um prédio que representa o poder ou a República? Essas questões conduzem os sociólogos, por fim, à interrogação decisiva: o que significa, para os vândalos, uma biblioteca?
Imaginei que, tal como aconteceu no poema de Victor Hugo, os responsáveis pelo incêndio seriam chamados a falar, para que pudéssemos conhecer sua motivação. Seriam eles “analfabetos” ou cidadãos “que não sabem ler” e protestam, então, contra os poderosos “iletrados” que se encontram do lado oposto?
Não escapa aos sociólogos a quantidade de contradições acumulada no ato de destruir: pois, embora trazida pela municipalidade, a biblioteca oferece algum prestígio ao local. No caso de um país como a França, a biblioteca também se ocupa de abrigar a cultura de diversas etnias, e assim há livros em árabe, em línguas asiáticas e em espanhol nas prateleiras. Trata-se, pois, de um espaço de afirmação individual – a servir até mesmo às mulheres, que encontram na biblioteca, muitas vezes, um modo de escapar ao controle patriarcal.
Aparentemente, contudo, “as bibliotecas são percebidas às vezes como uma força social vinda do exterior”. Ou seja: o espaço de leitura atuaria como a imposição de uma ordem sobre a outra, pela qual até mesmo a disciplina, o isolamento e a interiorização que caracterizam a relação do corpo com o livro se opõem à cultura da rua – que se manifesta pelos protestos do rap, do hip-hop e por agitações e movimentos ruidosos. Nesse sentido, o Estado promoveria um “espaço de virtude” contrário aos desarranjos sociais. Pior ainda: como se fossem a repercussão do poema de Victor Hugo, os ataques recentes às bibliotecas são executados pelos excluídos dos empregos e das escolas, que se sentem ameaçados pelo poder estabelecido a partir do domínio da palavra escrita. Ou como exclamou um cidadão entrevistado para a pesquisa sociológica: “Me dê trabalho no lugar de bibliotecas!”.
Infelizmente para os que se horrorizam diante da queima dos livros, os protestos nos subúrbios de Paris demonstrariam que uma biblioteca pode ser apenas um presente estatal com vistas a serenar os conflitos da sociedade.
Termino a leitura do ensaio em estado de perplexidade: sou de um país onde as bibliotecas são historicamente atacadas não por incendiários populares, mas pelo contínuo abandono e pela escassez de recursos financeiros e humanos. Em vez de fogo, há mofo, poeira, descaso e obsolescência. Na minha infância, por mais que insistisse, não havia biblioteca pública habilitada a estimular a leitura ou alguma vocação.
Estudei numa faculdade federal cuja biblioteca, segundo me relatam, foi indignamente surrupiada: pilharam-lhe, por exemplo, edições raríssimas de Luís de Camões e primeiras edições de Machado de Assis, em meio a goteiras e infiltrações. Portanto, se houvesse necessidade de uma agitação social, no caso em questão, creio que teria caráter paradoxalmente construtivo: as pessoas exigiriam locais adequados de leitura, em vez de incendiá-los. E existem iniciativas assim, freqüentemente focadas pela mídia como excentricidades: o pedreiro que mora num subúrbio carioca decidiu transformar a sua casa em biblioteca, pois considera que “o livro transmite a vida”; em Brasília, um comerciante estabeleceu um sistema bem-sucedido de empréstimos grátis de livros em pontos de ônibus.
Mas algo ainda me inquieta nessas histórias de vândalos e bibliotecas. Trata-se, em poucas palavras, de uma advertência que encontrei num ensaio justamente intitulado “Alfabetização Humanista”, incluído por George Steiner em seu livro Linguagem e Silêncio (1967). O autor indica que estudará “linguagem, literatura e o inumano”, e se mostra pessimista quanto ao valor de uma cultura literária e humanística: “O grau máximo de barbárie política desenvolveu-se no cerne da Europa. (...) Sabemos que alguns dos homens que conceberam e administraram Auschwitz foram educados lendo Shakespeare ou Goethe, e continuavam a lê-los. Isso tem uma óbvia e assustadora relevância para o estudo ou ensinamento da literatura.” Para o crítico, haveria “uma contradição entre o teor de inteligência moral desenvolvido no estudo da literatura e aquele necessário ao discernimento social e político.”
O que fazer? Estaríamos sob o ataque dos que não sabem ler, dos que não querem ou não podem ler, e dos que sabem ler e não se importam com os valores humanistas essenciais. E é por isso que as bibliotecas queimam – e, em casos extremos, as pessoas também.
Quem é



Dourado é o vencedor do Prêmio Machado de Assis 2008 pelo conjunto de sua obra. Izacyl foi o vencedor do Prêmio ABL de Poesia com o livro Discurso Urbano (Scortecci Editora).
O mineiro Autran Dourado tem 82 anos e toda uma vida dedicada à literatura. Nascido em Patos de Minas em 1926, o escritor mora no Rio de Janeiro desde 1954. Mais de 20 livros seus já foram traduzidos para outros idiomas. Entre os prêmios que o autor recebeu estão o Goethe de Literatura, na Alemanha, e o Camões, em Portugal. Seu livro mais conhecido, o romance Ópera dos mortos, faz parta da Coleção de Obras Representativas da Literatura Universal, da Unesco.
Izacyl Guimarães Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1930. É autor de 14 livros de poesia e foi premiado com o “Casa de las Américas”, em 1999.
A ABL também anunciou os ganhadores dos outros prêmios deste ano. Veja os vencedores:
PRÊMIO MACHADO DE ASSIS
Autran Dourado
PRÊMIO ABL DE POESIA
Izacyl Guimarães Ferreira ─ Discurso urbano
PRÊMIO ABL DE FICÇÃO, ROMANCE, TEATRO E CONTO
José Alcides Pinto ─ Tempo dos mortos
PRÊMIO ABL DE LITERATURA INFANTO-JUVENIL
Daniel Munduruku ─ O olho bom do menino
PRÊMIO ABL DE TRADUÇÃO
Agenor Soares dos Santos
Leonardo Fróes
PRÊMIO FRANCISCO ALVES
Paulo Nathanael Pereira de Souza
Carlos Eduardo Falcão Uchôa
Wilsom Dias/Abr

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A CARAVANA PASSA
Levi Bucalem Ferrari
Escândalos envolvendo homens públicos se sucedem com tal freqüência que deixam estarrecida a opinião pública. Eu, que nem sei bem o que é essa tal de opinião, assim tão difusa e indefinível, apenas percebo que um grande número de pessoas não consegue falar de outro assunto. Já tem como julgados e condenados os suspeitos de plantão que passam a ser sinônimo de corrupto nas brincadeiras, anedotas, conversas do dia a dia. Às vezes me surpreendo em não saber da última descoberta sobre as supostas falcatruas desses homens-símbolo. E sinto que, assim agindo, surpreendo também o interlocutor. Sinto e faço sentir o mesmo pasmo causado pelo meu desconhecimento e desinteresse por outro tipo de escândalo, o representado pelos deslizes sexuais, conjugais, negociais, fofocais, envolvendo celebridades midiáticas de todos os matizes.
Seria isso um tipo de omissão, portanto, de conivência passiva? Alienação, alheamento? Dou-me o benefício da dúvida e, por enquanto, afirmo apenas que me comporto como a personagem do poema Transitório Definitivo de Aníbal Machado, quando afirma: Os pequenos acontecimentos avultam aos meus olhos, os grandes se amesquinham.
Abaixo tento explicação mais lógica, mas antes registro meu repúdio a toda e qualquer forma de corrupção, particularmente a que envolve recursos públicos. Não há como brincar com isso, nenhuma dúvida deve pairar.
Para lá de um horizonte tão condenável quanto óbvio, é possível fazer algumas reflexões. A primeira é a de que, se o escândalo envolve homens públicos, sejam eles deputados ou senadores; juízes ou desembargadores; ministros ou barnabés, a culpa é sempre atribuída ao governo. E, por extensão, ao Estado. Pouquíssimos são capazes de constatar que são órgãos do Estado que investigam e apuram fraudes e suspeitos. E, se o governo não lhes fornecesse condições como recursos e outras, ou, ao contrário, lhes dificultasse a ação (e há, como já se viu, muitas formas de assim proceder) jamais saberíamos destas coisas que movem a roda de nossas conversas.
Vem em seguida o papel da mídia. Ela é quem apimenta a versão que comentaremos amanhã. Sobre isso, estou cansado de afirmar que não leio jornais nem revistas, não ouço rádio ou assisto à televisão para me informar. Faço as quatro coisas apenas para saber qual é a jogada, a quem interessa a divulgação de um determinado assunto. Que interesses a mídia representa em cada caso, além, é óbvio do de vender-se e vender nossos olhos a seus anunciantes. E outro menos óbvio. Em nossa frágil democracia, a viver constantes crises de legitimidade, a mídia disputa com o Congresso o papel de intermediador entre a tal de opinião pública e o Poder Executivo. Legitimação, prestígio, poder. E mais olhos e mais anunciantes.
Ao nos atolar periodicamente de informações bombásticas a mídia exacerba fenômeno típico da sociedade de massas: a substituição de uma informação pela outra, sua banalização pelo espetáculo e, conseqüentemente, o fim da memória e da crítica.
Piada não é indignação. E esta, sozinha, também nada transforma.
A indignação vendida no varejo tem levado ainda a um certo abuso de mecanismos excepcionais de investigação como o grampo telefônico, as gravações de conversas entre suspeitos, e muitas outras. Tais métodos que, no Estado de Direito, devem ser usados com parcimônia e sob sigilo, são escancarados na mídia. Pela gravidade assim ampliada dos supostos crimes, os métodos excepcionais de investigação se legitimam, passam a ser regra. E até uma conversa afetiva entre o suspeito e seu cão faz parte do espetáculo. No Coliseu midiático todos queremos sangue.
O perigo desses abusos é o de enfraquecer as instituições e a processualista jurídica. Aqueles procedimentos tão velhos quanto morosos, destinados a garantir o direito de defesa, vão nos parecendo obsoletos, merecem ir para o depósito genérico do formalismo e da hipocrisia.
Sugiro um sub-total até aqui. Os julgamentos já foram feitos, denúncias e sentenças proferidas pela mesma pessoa: o apresentador de jornais radio-televisivos, os colunistas de jornais e revistas. E mais, a pena será sempre ampliada pelos ingênuos de plantão em conversas de boteco, blogs, sites, listas de e-mail etc. Exasperações até o próximo espetáculo. Tudo para ser logo esquecido.
Por falar em esquecimento, o tratamento espetacular de escândalos escamoteia, empurra para debaixo do tapete, questões mais graves em nossa formação social. As injustiças que se perpetuam desde o período colonial e que se exacerbaram durante a implantação do neoliberalismo entre nós. Estão aí o desemprego e a precarização do trabalho; a diminuição gradativa dos direitos trabalhistas; o descaso para com os demais direitos sociais.
Quando será manchete – e assunto de boteco- o fato de que mantemos um dos maiores níveis de desigualdade social do planeta? Ou, dado mais palpável, cinqüenta mil mortes violentas por ano. Mais do que muitos países em guerra.
E a educação? Pelo andar da carruagem, colega escritor, nem sei se seremos lidos. Não pelas dificuldades de editar, distribuir, divulgar. Nada disso. Simplesmente porque a educação hoje, mesmo a universitária, não forma leitores, como não forma profissionais nem cidadãos. Preocupe-se também com isso.

Quem é
Levi Bucalem Ferrari é cientista político, professor, escritor e presidente da União Brasileira de Escritores (UBE) e do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos (IPSO).
Divulgação/Site de Barack Obama

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