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Domingo, 06/07/2008
NACHO GONZALES/DIVULGAÇÃO

Rosa Passos, intérprete brasileira mais reverenciada nos circuitos de jazz do exterior, inclusive por nomes sonantes, retorna à mídia com boas novas. Ela nunca vem à tona com fatos pequenos.
Cantora, compositora e instrumentista baiana é, desde o dia 10 maio, a primeira artista latina a ostentar o título “Doutora Honoris Causa” da Berklee College of Music, universidade referencial do jazz de Boston, EUA. Doutora!!
Ainda sob vibração da honraria, Rosa Passos lança no Brasil “Romance”, décimo quarto disco de uma carreira de quase 30 anos feita a toques e canto decisivos.
Por partes. O diploma da Berklee College é concedido a íntegras personalidades da arte musical. Rosa, portanto, figura agora ao lado de monstros sagrados como Duke Ellington, Count Basie, Sarah Vaughan, Aretha Franklin, Sonny Rollins, alguns dos agraciados.
Já “Romance”, novo disco, tem a tutela da gravadora norte-americana Telarc (distribuição nacional da Universal Music) e reafirma a proposta musical a quem gosta ou venha a conhecer o trabalho de Rosa: música brasileira de altíssima voltagem com pronunciado acento jazzístico.
Rosa Passos perfila clássicos lidos e relidos por tantos e busca ouvidos – atentos, claro – aos filigranas de sua voz. Emissão clara, entendimento muito particular de frases musicais e imersão instrumental - tempo e compasso pertinentes à ambientação intimista – são evidentes indícios da inteligência musical depositada em “Romance”.
Proposituras estabelecidas com um trio eficaz de músicos: Fábio Torres (piano), Paulo Paulelli (contrabaixo) e Celso Almeida (bateria). Torres e Paulelli arranjam a maioria das 12 faixas.
Lula Galvão, parceiro de Rosa há muito tempo, assina três faixas: as emblemáticas e redesenhadas “Nem eu” (Dorival Caymmi), “Atrás da porta” (Francis Hime- Chico Buarque) e “Tatuagem” (Chico Buarque-Ruy Guerra). Metais: flugelhorn, trompete, saxofones, flauta transversal; participações de Daniel D`Alcântara, Nahor Gomes, Vinicius Dorin).
O repertório evoca canções de amor em todos os seus compartimentos. Prevalecem os sentimentos enviesados. Bem interpretados e apoiados numa dinâmica intimista sem obviedades, os ânimos são aplacados e não revirados. Alternam-se a suavidade e densas intenções na voz, arranjos ou repertório.
Se “Doce presença” (Ivan Lins e Vitor Martins) conclama a um tempo de delicadeza, “Eu sei que vou te amar” (Tom Jobim- Vinicius de Moraes) à pertinente configuração e “Nem eu” (Caymmi) à temperança, “Altos e baixos” (Sueli Costa –Aldir Blanc) vem certeira incisão jazzística.
Do universo de Dalva de Oliveira, Rosa foi buscar “Neste mesmo lugar” (Armando Cavalcanti – Klecius Caldas) e fez o que tinha que ser feito: emocionar com admirável maleabilidade vocal. Também pelos solos instrumentais, esse “Romance” é muito bem resolvido. Dá gosto!
A seguir, trechos da entrevista que Rosa Passos concedeu ao blog Sintonia Musical
Como vai, doutora?
(risos) Eu estou bem, estou ótima, graças a Deus. Com esse diploma da Berklee College of Music eu passo a ter o privilégio de poder ministrar oficina em qualquer escola de música do mundo. Isso é muita responsabilidade! Fiquei honradíssima, emocionada porque é resultado de um trabalho feito com muita verdade.
A música lhe deu essa alegria, em algum momento ela a deixou ou você quis deixá-la e fazer outra coisa?
A música nunca me decepcionou! Alguns momentos a carreira foram muito difíceis, muitas lágrimas e lutas... Hoje eu tenho a certeza de que escolhi o caminho mais difícil e ao mesmo tempo certo que é fazer música de qualidade.
Vamos falar de “Romance”. Que diferencial você apontaria nesse disco em relação a projetos anteriores?
De uns quatro anos para cá eu vinha com vontade de fazer um trabalho dessa forma. Um disco com baladas é mais difícil do que fazer um disco de samba, que é um ritmo para fora, alegre... Fiz um disco com canções de amor com a intenção de mostrar o lado da intérprete mais intimista, mais jazzista. Para mostrar às pessoas que não conhecem bem meu trabalho que eu não faço só Bossa Nova, que tenho um trabalho diversificado.
Que você não é “João Gilberto de saias”, como muitos ainda insistem em chamá-la, né?
Não mesmo. O que as pessoas precisam entender é que aprendi muito com João, mas segui o meu caminho. Digo sempre que faço música popular brasileira de qualidade e, dentro dessa proposta, a Bossa Nova está à frente, é a maior influência. Mas também sou uma compositora de sambas, boleros, de vários gêneros.
Além do acento jazzístico o que você, Rosinha, imprimiu às releituras de “Romance”?
Acho que minha leitura, modéstia à parte, é personalíssima. Sei que tenho essa capacidade e algumas cantoras da nova geração me dizem isso. Entre elas, Adriana Godoy (filha de Hamilton Godoy, do Zimbo Trio), Silvia Maria e a Giana Viscardi, que disse que sou uma referência para ela. Poxa, é tão bom ouvir isso.
E há cantoras conhecidas nacionalmente como Fernanda Takai e Ivete Sangalo que são suas admiradoras confessas também pela maneira de interpretar canções...
Nas oficinas que ministro, inclusive na Berklee College, gosto muito de falar sobre o canto, a interpretação. Friso muito: “cuidado com a respiração, com a emissão, dicção... converse com a música”. Não precisa gritar! É possível fazer algo com uma dinâmica mais forte sem a necessidade de gritar. Fazer tudo com entonação, personalidade e firmeza sem perder a delicadeza.
No ano em que se comemora meio século da Bossa Nova, não seria mais “fácil” gravar um disco só com clássicos do movimento?
Eu ouço Bossa Nova todos os dias, meu preto! Não preciso esperar a Bossa Nova fazer cinqüenta anos para comemorar porque é um movimento que sempre fez parte de minha vida musical. Minha ligação mais forte é com João Gilberto e Tom Jobim. Eu fiz o Amorosa” (2004), do qual gosto muito e, modéstia à parte, acho primoroso, que é um disco de Bossa Nova para qualquer época. É um trabalho audacioso porque foi uma homenagem ao “Amoroso” (1977), de João Gilberto.
Você e João Gilberto têm se conversado?
A última vez que conversei com ele foi quando eu estava indo para fazer o Carnegie Hall, em 2006, depois de quase 15 anos sem nos falarmos. Ele me ligou querendo saber o endereço de um maestro com quem gostaria de ter contato e me desejou boa sorte. Sei que ele acompanha meu trabalho porque temos uma amiga em comum. Sempre mando um disco para ele.
Você ainda continua tomando, depois do show, uma taça de vinho tinto com pedras de gelo?
(risos) Não mais! Você sabe quem toma vinho com gelo?
Não!
Toots Thielemans (lendário guitarrista e tocador de harmônica). Eu sou muito fraca para esse negócio de bebida. Então, quando me dava vontade de tomar um vinho colocava meia tacinha com quatro ou cinco pedras de gelo. Mais que isso, eu ficava olhando para os sapatos, dando risadas... (risos). Eu prefiro a purificação porque isso acaba sendo transmitido para a minha música.
Isso é verdade...
Pode escrever aí que eu sou uma pessoa abençoada por Deus e pela música que Ele colocou em minhas mãos.
Quantos passaportes até agora, hein?
(risos) Estou indo para o terceiro... Estou indo mais devagar para o exterior porque aposto cada vez mais no meu país. Eu gosto muito de cantar no Brasil.
Qual seu tamanho, Rosinha?
(risos) Tenho 1,53 metros de altura... Não sei, não saberia responder a essa pergunta sua... Sei apenas que sou uma missionária da música. Meu tamanho exato quem sabe é Deus!
Você é imensa!
Ô, meu preto... Tudo isso é um presente que ganhei nessa encarnação. Pedi para vir cantando e estou tentando cumprir minha missão da melhor maneira possível. Estou num momento muito feliz da minha carreira, não tenho mais necessidade de provar mais nada a ninguém, nem a mim mesma. Sou perfeccionista, chego a ser “cricri”. Penso sempre em fazer o melhor. E o melhor ainda é fazer a música com o coração.
Quem quiser saber mais detalhes sobre a trajetória da artista pode acessar o site www.rosapassos.net
EDSON NAKAMURA

Cida Moreira está menos intensa. E mesmo assim comove. A simplicidade com que relê um certo Angenor de Oliveira contém verdades. Portadora de recursos vocais volumosos – cujas marcas foram impressas nos outros sete discos -, Cida apegou-se à essência melódica e literária de Cartola e acrescentou emoção. Técnica bem aplicada também.
Regiões vocais e anímicas sublimadas.Uma intérprete sabe como e onde e quando e o porquê de tudo o mais. Interiorizações, Serenidades desconhecidas – até mesmo por Cida – resultaram no tributo mais respeitoso e conveniente aos cem anos de nascimento de Cartola.
Outros poderão destinar vozes e sopros e cordas, mas “Angenor” dificilmente será superado nos tributos – poucos até agora – que virão blocados ou diluídos em intenções diversas. Aos oportunistas ou bem-intencionados no século de Cartola, um aviso: ouçam primeiro “Angenor” para não desconfigurar a auto-estima...
O projeto Cartola foi idealizado pelo produtor e músico Omar Campos. Cida Moreira aceitou a proposta e foi buscar na fonte a matéria-prima – quatro títulos registrados– do mestre da cara feia e das harmonias e literariedades comuns aos gênios da raça. Das pesquisas colheram-se 43 músicas, das quais 16 foram para no disco – “As rosas não falam” ficou de fora, melhor assim.
Outras convenções foram subtraídas: em vez de “Cida canta Cartola”, apenas “Angenor”. Suficiente! O álbum vale-se principalmente de um repertório em que clássicos e os devidos pesos alinham-se a canções pouco divulgadas nas vozes tantas que veneram Cartola pelo viés burocrático, das rosas que exalam suas pétalas, só isso.
Do inatingível veio “Feriado na roça”, universo caipira do caboclo que disparou tiros e resolveu, à sua maneira, o ciúme que amolece o juízo. “Nós dois” sucede o fato com poesia crível. “Silêncio de cipreste” (em parceria com Carlos Cachaça, com um piano a sugerir pegadas jazzísticas) se encaixa nos questionamentos existenciais – recorrentes na obra de Cartola – a exemplo de “Fim de estrada”. “Senões” é outra.
Há de desarmar qualquer ser humano – independente dos arsenais – “A canção que chegou” (criada com Nuno Veloso). Violões, semitons, Cida a sinalizar a proposta do disco. Linda, linda! Resgate memorável! Abre o disco, sintetiza “Angenor”.
Nos clássicos, Cida e a atual serenidade – numas, porque há laivos de visceralidade - reconstroem “Alvorada” (com Hermínio Bello de Carvalho e Cachaça; o contracanto de Júlia Porto não deixando cair no trivial), “O mundo é um moinho” (os sussurros a pedirem reflexões; “vai reduzir as ilusões a pó”), “Sim” (Oswaldo Martins, o co-autor).
Além de Omar Campos (violão e co-produção musical), apoiam o cantar de Cida os seguintes músicos: Camilo Carrara (violão), Keko Brandão (piano), Renato Loyola (contrabaixo), Adriano Busko (percussão), Chiquinho de Almeida (clarinete). Oswaldinho do Acordeon (“Feriado na roça), Marcelo Fonseca (voz em “Silêncio do cipreste”), Passarinho (“Fim de estrada”) e Toninho Carrasqueira (flauta em “O inverno do meu tempo).
Cida adiou para 2009 o projeto “Modinhas e canções do Brasil”; a prévia poderá ser comprovada no dia 14 de julho, no Teatro Zaqueu de Melo, dentro da programação artística do Festival de Música de Londrina. O lançamento de “Angenor” acontece entre os dias 4 e 6 de julho, no auditório Ibirapuera, em São Paulo. No palco, ela receberá Alaíde Costa, Zélia Duncan e Hélio Flandre (Vanguart).
Camerístico aqui ou ali, tons propositalmente baixos e convenientes, inflexões líricas, sambas-canções. “Angenor” é bom demais para ficar relegado a um tributo manso a Cartola. Cida nunca resvalou na obviedade. Não seria agora diante de um mestre tão bem descrito – o qual li e reli tamanha a coerência e reverência - por ela no texto de divulgação.
Fragmentos do que trouxe à tona: “A música do Sr. Angenor deveria ser cantada para ficar em primeiro plano. Eu, aprendiz da delicadeza e da sabedoria dos homens superiores, me curvei... E me curvo... E me curvarei”.
“Angenor” é gênero de primeira necessidade!
Confira a entrevista que Cida Moreira concedeu ao blog Sintonia Musical.
Você conheceu Cartola pessoalmente, certo? Qual a impressão mais marcante?
Vi o Cartola uma única vez num Projeto Pixinguinha, no Rio de janeiro,em 1979. Sua fragilidade e feiúra eram toda a sua beleza.
“Angenor” sairia independente do centenário de Cartola?
“Angenor” sairia de qualquer jeito!! Adiei para o ano que vem o projeto “Modinhas e Canções do Brasil”, que é uma preciosidade.
Você está menos intensa, mais suave na interpretação das canções. O repertório pediu isso ou foi alguma “sacação” particular?
Não estou menos intensa, apenas tenho aprendido a obedecer a música e deixá-la em primeiro plano. Sou explosiva em outros repertórios, mas ando mais serena, feliz.
O que você acredita ter acrescentado à obra de Cartola?
Não tenho pretensão de ter acrescentado NADA ao Cartola. Ele é quem me acrescentou um mundo de belezas e delicadezas e dores e alegrias. Sou uma serva apenas.
Reprodução

Como instrumentista, o que você apontaria de especial nas melodias e/ou harmonias em Cartola?
Musicalmente, Cartola é refinado harmonicamente. Ele tem uma construção melódica espantosa e desconcertante, além das palavras. Ah, as palavras... que continuam me encantando mais que tudo nesse mundo.
Chico, Brecht, Cartola. Alguém mais você gostaria de reverenciar em disco?
Quero reverenciar ainda Adoniran Barbosa, Ary barroso, Arrigo Barnabé e,sempre, Chico, Brecht e Kurt Weill
Cantora por primazia, mas artista multimídia (cinema, teatro, televisão). O que a move artisticamente?
O que me move é minha sobrevivência total, meu ar, minha ideologia e uma busca incessante do sentido de existir e ser fiel à minha natureza, que me presenteou com esse dom maravilhoso. Agradeço todos os dias da minha vida, sem exagero nenhum...
Você não é uma cantora propriamente popular, dos hits radiofônicos. Mas tem prestígio. Isso basta?
Prestígio basta sim, me deu régua e compasso para viver com muita dignidade, criar minha filha e ser feliz com o muito que tenho pois ser artista e um privilégio e não uma coitadeza.
É verdade que você já fez show em sauna?
Fiz um “Summertime” (primeiro disco, 1981) inesquecível numa sauna gay em São Paulo, em 1982. Foi uma das coisas mais lindas da minha vida artística.
O que você imprimiu até agora como artista de música com quase 30 anos de trajetória?
Acho que imprimo coerência e integridade até quando erro. Estou no mundo para o que der e vier, literalmente.
WALTER FIRMO

Tanto tempo e tão poucos discos. Muitos admiradores. Elizeth Cardoso, por exemplo, sempre que podia rumava às boates para ver o desempenho no palco da amiga que conheceu, vejam só, num salão de beleza.
A noite! Bares com música ao vivo: converseiro (quem se expôs sabe que faz parte, mas dá uma raiva...), fumaça de cigarro, destilados, fermentados, perfumados, hálitos, modos, cotovelos inchados, corações de todos os tamanhos, ofício! Quantas noites essa artista concebeu?
Áurea Martins, nome pouco envernizado pela mídia. Intérprete carioca de timbre forte, terceiro disco gravado. TERCEIRO! Sai pela gravadora Biscoito Fino – os anteriores são de 1972 e 2003. O de agora tem as bênçãos de Hermínio Bello de Carvalho. Ela, quase 50 anos de carreira, exatos 68 de idade.
“Até sangrar” tem, digamos, o jeito Hermínio Bello de Carvalho de resgatar jóias dos penhores cotidianos. Senhores do valor fonográfico deixaram Áurea no canto dela. Literalmente. Hermínio foi buscá-la. Voz aveludada graves e agudos encorpados, vibratos ainda extensos. Breves contratempos como quem engole saliva para melhor degustar palavras cantadas.
Catorze faixas, algumas algutinando canções que dialogam-se. De Lupicínio Rodrigues, cinco. “Não sou de reclamar” e “Há um Deus” no mesmo bloco de “Ocultei” (Ary Barroso; “que Deus me perdoe o pecado/ É que outra mulher ao teu lado/ Te mate na hora de um beijo”) precedida por “Até o amargo fim” (Newton Teixeira- David Nasser; “Pelo gosto amargo da saudade/ meu amor/ em silêncio vais me ouvir”).
Um fio de melancolia atravessa o repertório. O amor e seus efeitos colaterais. Quem se expôs às delícias e iras afetivas irá estabelecer associações pertinentes. Aos práticos, pode ser apenas um álbum de veterana cantora com repertório de autores notáveis. Às favas os indolores! “Até sangrar” é para todo o sentimento.
“Até sangrar” rima amor com dor sim, senhor! Nada, porém, que faça alguém – alguns, muitos? - aditivar organismo ao extremo, desferir impropérios, atirar aparelhos telefônicos às paredes, rasgar fotos e cartas, apagar e-mails ou amaldiçoar dias ou noites...
Áurea emites sinais particulares. Os atributos vocais poderão, quem sabe, alcançar corações desprevenidos. A ambientação sonora remete às boates da tão decantada boemia carioca de outrora ou dos renitentes bares da vida que ainda investem em artistas. É nesse universo que Áurea brilha.
Conteúdo impressionante mesmo que Herbert Vianna e Paula Toller (“ Nada por mim”) apareçam deslocados entre artesãos de versos e harmonias: Herivelton, Lupicínio, Alf, Donato, Jobim,Moraes, Hime, e tantos.
Sofisticação desde a primeira faixa. Luxo só abrir com Johnny Alf: “Ilusão à toa” insinuando-se a “Pensando em ti” (Herivelto Martins- David Nasser). Suportes sutis: “Eu acho graça do meu pensamento/ a conduzir o nosso amor discreto”; “Me deixe ao menos/ por favor, pensar em Deus.
Canções “isoladas” e igualmente intensas: “Até quem sabe” (João Donato –Lysias Ênio), “Sem mais adeus” (Francis Hime – Vinicius de Moraes), “Janelas abertas” (Tom Jobim – Vinicius de Moraes), “Noturno – Em tempo de paz” (Custódio Mesquita – Evaldo Rui). Todas sangram, mais ou menos.
As tais participações especiais. Alcione é quem melhor se posiciona perto de Áurea Martins – elas se conheceram nas noitadas musicais – em “Vida de bailarina” (Chocolate- Américo Seixas). Emílio Santiago está em “Valsa dueto” (Carlos Lyra – Vinicius de Moraes) e Francis Hime em “Embarcação” (parceria com Chico Buarque).
“ESSA AÍ SABE DAS COISAS” - “Até sangrar” é intimista. Áurea ampara-se num time fantástico de músicos, a começar pelo pianista José Maria Camiloto Rocha, lendário Zé Maria Rocha, co-responsável pela concepção artística e roteiro.
Ele é responsável por grande parte dos arranjos executados juntamente com seus companheiros de trabalho do Terra Trio: o contrabaixista Fernando Costa e o baterista Ricardo Costa. Terra Trio... impossível não pensar na Rosa de Lufã. Signos.
Reprodução

Ah, sim, dois outros excepcionais músicos: Jorge Helder (contrabaixo) e João Cortez (bateria). Outros maestros: Cristóvão Bastos, Alberto Chimelli e João de Aquino. Estrutura bem arquitetada, Áurea Martins finca seu canto vigoroso.
Hermínio Bello de Carvalho, o mentor. Maravilhou-se de vez na década de 80 a viu e ouviu cantar “Embarcação”. Não sossegou até produzir um disco dela. “Até sangrar” demorou, mas saiu. Hermínio vai para o céu por essa e outras contribuições à música brasileira.
É dele o seguinte texto impresso no encarte: “Lembro quando Jamelão me cochichou, quando foi chamada pra cantar numa reunião caseira: “essa aí sabe das coisas”. Deu pra entender porque a Divina Elizeth saía de casa à noite (coisa rara!) para ouvir outra cantora. Essa cantora era você. Há poucos dias, lá em casa, flagramos nossa Diva Zezé Gonzaga vertendo as tais lágrimas de sangue (como já o tinha feito Emílio Santiago) ao ouvir a prova do teu disco. Quando contamos pra Alcione o título do disco, achamos lindo ela dizer: “vou é giletar meus pulsos”.
“Embarcação” encerra o disco. “Cais, ficou tão pequeno o cais/ Te perdi de vista para nunca mais”. Para nunca mais! Quantas e quantas vezes eu a ouvi cantar essa música, Áurea! O disco todo, mas essa música... Eu aprendi a estancar o sangue! Ficou pequeno o cais...
RENATO FORIN JR.

Diz Fernanda Takai que “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” era uma das canções que a faziam ninar. É? Olha só... Mãe canta cada coisa que a gente só vem a saber ou compreender os sintomas tempos e tempos depois. O clássico de Roberto e Erasmo Carlos, lançado em 1971, foi regravado por Nara Leão sete anos depois.
Consta no repertório de “Onde brilhem os olhos seus”, primeiro disco-solo de Fernanda, respeitável tributo a Nara Lofego Leão (1942-1989). Um dos números mais aplaudidos e cantados no show homônimo apresentado no Cabaré do Festival Internacional de Londrina (Filo), a canção dos Carlos estava ao lado de releituras de Michael Jackson, Duran Duran e... vai entender, né? A platéia predominante jovem entendeu tudo...
Alto lá! Se é para homenagear Nara porque não acrescentou, em cena, outras tantas canções por ela registrada com o consistente viés pop de “Onde brilhem os olhos seus”? Faltou, talvez, um pouco mais de tom político ou social – “Lindonéia” (Caetano Veloso) dissolveu-se entre as luzes e sonoridades mais convenientes a um show para entreter a galera, os novinhos, os filhos do pop.
Poderiam ser reformatadas, por exemplo, “Opinião” e “Acender as velas” (ambas de Zé Ketti), “Funeral de um lavrador” (Chico Buarque), “Traduzir-se” (Fagner- Ferreira Gullar). Outras! São quase 30 álbuns pela homenageada, poxa! Reforçaria mais a diversidade do disco, que não reduziu Nara à pequeneza de “musa da Bossa Nova”.
E no entanto, Michael Jackson e Duran Duran... Tá, legal a versão em japonês de “Barquinho” (Roberto Menescal – Ronaldo Bôscoli). Essa ainda encaixa-se no contexto e salienta a personalidade que Fernanda imprimiu ao reler Nara Leão sob a ótica pop.
“Onde brilhem os olhos seus” funciona melhor em disco, idealizado por Nelson Motta e próximo das 40 mil cópias vendidas. Um DVD está a caminho.
Talvez no registro audiovisual alguns lances podem - e devem - ser melhor alinhavados com uma direção firme que faça Fernanda Takai não se mostrar tão desajeitada muitas vezes em cena.
Performance nada maleável. Um tal de vai à frente e ao fundo do palco, giradinhas, segura e solta e prende o fio do microfone, tira, põe, deixa ficar... Até a gravação do DVD – ainda não estão definidos o local e data - de amarrar melhor a narrativa.
Antes de subir ao palco do Cabaré do Filo, Fernanda atendeu a imprensa. Afável e delicada, respondeu a perguntas que iam de música à moda ("acho que roupa discute tantas histórias").
Falou de política consciente e sem panfletagem às suas origens nipônicas (o pai é descendente de japonês e o bisavô veio no lendário Kasato Maru, navio da primeira leva de imigrantes ao Brasil) às “pazes” feita com Milton Nascimento (mal-entendido que deverá ser resolvido nos próximos dias através da música; ela não quis nada adiantar).
Prestes a completar 37 anos, Fernanda Barbosa Takai se diz muito sintonizada com muitos fatos que ocorrem ao seu redor. Algumas das experiências e sensações foram colocadas no livro “Nunca subestime uma mulherzinha”, compilação de crônicas e ficção publicadas nos jornais “O Estado de Minas” e “Correio Braziliense”.
A seguir, trechos da entrevista que a vocalista do Patu Fu concedeu ao ao Blog Sintonia Musical com o gentil consentimento dos jornalistas presentes à entrevista coletiva.
Esse disco seria um possível ensaio para uma carreira-solo ou a relação com o Pato Fu é aberta?
Eu sempre digo em entrevistas que a banda não vai acabar. Não por minha causa. No Pato Fu todo mundo tem outros projetos musicais. Eu não queria fazer nada porque achava que vocalista fazendo trabalho solo iria chamar muito a atenção. O Nelson (Motta) me convidou para fazer o projeto e eu nem pensava em disco-solo porque o Pato Fu me atende artisticamente. Esse é um projeto muito específico que a gente fez com nossos próprios fundos, não tinha nenhum selo ou gravadora por trás, enfim foi um disco totalmente independente quando começou a ser feito. E eu me senti à vontade para faze-lo e lançá-lo quando eu quisesse.
Sua relação com Nara Leão sempre foi próxima musicalmente?
É uma relação que vem desde criança. Meus pais sempre gostaram da Nara e tinha os discos dela em casa. O Nelson (Motta) não sabia disso. Quando ele me chamou achava que eu e a Nara tínhamos apenas alguma coisa no jeito de cantar. Ele nem sabia que eu gostava dela! Quando soube disse que o disco tinha que ser feito. Fiz o disco junto com o nono disco do Patu Fu (“Daqui pro futuro”) ao mesmo tempo, só que o da banda saiu em julho e o meu em dezembro.
Quanto ao repertório deve ter sido difícil porque Nara tinha uma vastidão de músicas de autores do “morro” e da cidade. A seleção passou apenas pela memória afetiva?
Não! Se você perceber, no disco há uma diversidade. Tem samba de morro, tem Ernesto Nazareth, Ary Barroso, tem um repertório mais popular que quando ela gravou muita gente reclamou, os amigos não o público, que é Roberto e Erasmo Carlos. Aliás, ela foi a primeira voz digna da elite da MPB a gravar um disco só com canções dos dois. A idéia era mostrar uma Nara ampla e não apenas a cantora de Bossa Nova, que é a imagem que ela ainda tem no Brasil e no exterior.
Li que você gosta muito de cantoras de vozes pequenas, de cantoras de pé de ouvido. Você é uma cantora de pé de ouvido?
Sou, com certeza! Sou uma cantora de microfone. Se eu estiver num lugar que não tenha um microfone bom, que eu não seja escutada, não consigo fazer um show como uma cantora que canta pra fora e se dá bem com isso. Para as pessoas gostarem do meu timbre de voz eu preciso ser bem ouvida, as precisam ter essa, essa...
Delicadeza de ouvi-la?
É... Assim, eu canto de um jeito muito suave, uma escola diferente de outras cantoras. A Rita Lee é desse meu time só que ela canta rock, embora tenha voz de Bossa Nova e até gravou disco maravilhoso, o “Bossa´n´roll”. É um time de gente que canta pequenininho e tem também espaço na música. Mas o Brasil é um país de grandes cantoras com potencial vocal exuberante como Elis Regina, Maria Bethânia, Gal Costa e do pessoal mais novo, a Ivete Sangalo, Ana Carolina... Elas cantam para fora, podem fazer show aqui, agora. Eu já não posso. A não ser que todos fiquem perto de mim...
Não teme soar pejorativo você dizendo ser “cantora de de microfone” e as pessoas falarem “ela não canta nada”?
Não, não. Tanto que sou muito tranqüila com esse conceito porque eu gosto de gente que canta pequenininho. Se estou me colocando nesse time é porque é bom existir essa possibilidade de vozes.
Não fosse o disco-tributo a Nara seria um outro álbum a outras cantoras de vozes suaves?
Não pensava em fazer esse disco... Eu gosto muito da Rosa Passos, da Rita Lee, da Clara Nunes que é outra escola... A idéia da Nara veio com força porque fazia muito sentido: 20 anos da morte, de ela ter sido a musa da Bossa Nova e, principalmente, de o público mais novo não saber da sua importância histórica como intérprete.
Interessante porque você é uma referência no pop nacional e o disco poderia não ter sido bem recebido por essa nova geração, e no entanto foi...
Pois é... O teto de vidro do meu disco era fazer um disco de intérprete... Se o disco saiu com boas críticas é porque eu consegui que tivesse meio jeito de cantar e ao mesmo tempo ser fiel ao que a Nara fazia.
“Nunca subestime uma mulherzinha”. Como é que surgiu esse livro de contos e crônicas?
Toda às sextas-feiras eu escrevo para os jornais O Estado de Minas e, quinzenalmente, para o Correio Braziliense. O convite apareceu há três anos. Eu escrevia para outras publicações quando me pediam, para a Playboy inclusive. Aí um editor de O Estado de Minas pegou um monte desses textos e disse que eu tinha um jeito diferente de falar sobre universos diferentes,que tinha um jeito pop de escrever. E perguntou se eu não queria assumir uma coluna no espaço que era do Ziraldo.
Que honra, hein?
(risos) É... Eu cheguei a dizer que o espaço era do Ziraldo e que não iria aceitar... Argumentei que os leitores poderiam não ficar satisfeitos. Entrei com a condição de fazer um teste de três meses e já estou há três anos. São crônicas porque eu acho que cria uma empatia melhor com os leitores. Uso o meu cotidiano como pano de fundo: sou mãe, canto numa banda, sou dona de casa, faço shows aqui e fora do Brasil... Escrevo sobre tudo isso... E no livro escrevo também sobre várias ficções que têm imagens do que me aconteceu na vida real, mas que invento uma história totalmente maluca com uma imagem que pode ser no trânsito ou com minha mãe em casa. Esses textos deram origem a “Nunca subestime uma mulherzinha”
RENATO FORIN JR.

“É chamado de espírito livre aquele que pensa de modo diverso do que se esperaria com base em sua procedência, seu meio, sua posição e função, ou com base nas opiniões que predominam em seu tempo” (Friedrich Nietzsche)
DIVULGAÇÃO

Eis o mistério: como essa mulher comportar tantas histórias e superações? Elza Soares mantém-se tesa pelos momentos de agora e do que há por vir. O passado foi conjugado. Viva, Elza, viva!
Mito – alguém tem um adjetivo novo e apropriado a oferecer, hein? – ela vai tocando a vida. E na vida. Tem quer ser o agora!
O agora: nesta quinta (12 de junho), ela retorna ao Cabaré, espaço cênico-musical do Festival Internacional de Teatro de Londrina (Filo), depois de nove anos.
Da primeira vez, atiraram flores ao palco.Florezinhas simples, daquelas que a gente cheira, beija e coloca aos pés da santa. Manifestações espontâneas.
Da segunda vez, agora, Elza pede: “Beba-me”. E vai avisando: “Se alguém cair de pileque que caia por cima de mim”.
Faz referência ao show proveniente do CD e DVD homônimos, lançados no final do ano passado pela gravadora Biscoito Fino. Ah, não tem? Não viu e nem ouviu? Tem que ver e ouvir.
No projeto audiovisual Elza da Conceição Soares estava quietinha no palco, amparada por uma cadeira. Recuperava-se de uma diverticulite. Não pôde se soltar muito, sentia dores, restrições incomuns a uma mulata assanhada.Agora terá samba miudinho que só ela sabe fazer - se duvidar percorre o palco cantando e chacoalhando-se.
Não se espantem se no meio do palco estiver uma cadeira em forma de sapato de fino e alto salto. Agora, é – luxuoso, por assim dizer – objeto cênico.
Apoio para os momentos intimistas quando soltar a voz – não precisa dizer extensão e intenções, né? – em “Fadas” (Luiz Melodia) ou mesmo no tango (isso mesmo, tango!) “Volta por cima” (Paulo Vanzolini), por exemplo.
O repertório deve seguir o roteiro original do projeto “Beba-me”. Porém, tudo pode acontecer quando Elza verter-se, mesmo à revelia, em divindade. Que dança e chama e aquece e vai de Billy Blanco (“Estatuto da gafieira”) a “Rap da felicidade” (aquela, “eu sou quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci; Julinho Rasta- kátia). De Wisnik (“Flores horizontais”) a Seu Jorge- Marcelo Yuka -Wilson Capellette (“A carne”).
Por onde passou, “Beba-me” causou “ressacas” anímicas. Foi ao exterior, ainda vai correr o Brasil - imenso país, precisa ver, rever ou reconhecer Elza Soares. Claro, só tenho boas palavras, um elogio novo a ser dado. As entrelinhas.
Ora, o que é direto e muito oferecido não tem graça nenhuma. Que cada um descubra Elza Soares da maneira que melhor convier! Tem biografia (“Cantando para não enlouquecer”, 1997,de José Louzeiro, Editora Globo), discos (mais de 40 entre compactos, elepês e CDs) e principalmente ela.
Ao vivo e em cores, ela é bem melhor. Tem que escanear essa mulher com olhos e sentimentos bem abertos.
Que ninguém ouse falar um “isso” a menos de quem, em quase 50 anos de carreira, mantém-se alta como a lua. “Quem não ama não vive, cara”, diz ela, que já foi pedida em casamento no palco por um jovem, possui tatuagens, gosta de glamour. O que vem dela é surpreendente.
A seguir, alguns trechos da entrevista com Elza Soares. Ou seria um bate-papo?
O que se pode esperar de “Beba-me”?
Podem esperar uma bebedeira maravilhosa! Podem esperar uma Elza que tem sempre uma carta na manga e que vai fazer um carnaval louco. Podem aguardar porque o calor é muito. Se estiver fazendo frio eu esquento.
Quantos shows até agora?
Meu amor, não tem como fazer as contas... Já fomos para o exterior, percorremos o Brasil... Graças a Deus já saíram três edições do DVD.
Já chegou a disco de ouro, é isso?
Eu acho que sim...
Olha como são as coisas, né? Quase 50 anos de carreira e no primeiro DVD você ganha disco de ouro... Demorou para acontecer, né?
Ah, meu amor, isso se deve ao respeito das pessoas por mim. Isso é vida, é luta, é tempo de trabalho. Não passou da hora porque tudo acontece na hora que Deus permite. Eu acredito muito no que Deus determina pra a gente. E esse DVD veio quando fui parar no hospital por causa de diverticulite.
E você está bem agora?
Estou super bem, ótima! Ma-ra-vi-lho-sa, graças a Deus! Melhor não ser ingrata com Deus, né? Estou ótima, sim!
Esse CD e DVD não poderiam ter sido gravados depois de você se recuperar, hein?
Eu acho que sim, mas acontece que o empresário estava com muita pressa de ganhar dinheiro. E ele com lisa cara-de-pau me disse: “Elza, eu pensei que você fosse morrer”... (risos). Eu falei: “nada disso, estou aqui linda, gostosa, maravilhosa”.
Você gostar de glamour, né?
Total!
De onde vem tanto glamour?
Olha, eu diria do respeito a quem irá me ver! Ninguém sai de casa para ver coisa ruim, coisa feia... Então, você tem que ser glamourosa, perfumada. Além disso, eu malho bem, me alimento de forma sadia, entende?
E tem que amar muito, certo?
Claro! Mas olha, eu gosto mesmo é de ser amada por todos vocês! Tem que ser amor geral, esse amor que vocês têm por mim, que eu tenho por vocês, pelo respeito ao meu mundo.
Você é uma mulher de grandes amores?
Sou, graças a Deus! Quem não ama não vive, cara!
Concordo!
Já viu alguém viver sem amor? Isso não existe... Nem que seja amor por uma plantinha ou pelo mundo... A gente tem que amar tudo na vida!
Você vai do pop ao jazz, do samba ao rock. Você é uma cantora eclética? Como a gente a classificaria?
Sou totalmente eclética. Se Deus me deu a dignidade de cantar, tenho que cantar de tudo. Eu não gosto de rótulos, não sou refrigerante, my love...
Você ainda continua tendo “24 horas" de idade?
Eu tenho 24 horas de idade porque são 24 horas de vida que eu vivo todos os dias.
Planos para gravação de mais um disco?
Eu não faço planos, deixo as coisas acontecerem. Se minha assessoria planeja alguma coisa eu sou avisada e decido.
Ah, é assim?
Eu prefiro assim!
Você é um mito sabe, né?
Graças a Deus... Ah, você sabia que eu fiz uma tatuagem na perna?
(risos) Não! Eu vi você com algumas tatuagens no DVD, não me pareceram verdadeiras...
É tatuagem mesmo! Eu fiz uma fênix na perna já que dizem que estou ressurgindo das cinzas. E o filme “Chega de Saudade” (de Laís Bodanzky, em que Elza faz participação especial) abre com as minhas costas onde há tatuada uma rosa maravilhosa.
Sabe uma cena que não me sai da cabeça? Você, se apresentando no Cabaré do Filo, em 1999, sentada ao palco e cantando “O meu guri”... E um monte de flores atiradas em você...
É verdade, tinha um bando de rosas no palco, foi lindo demais! Um monte de gente, de jovens também... Aliás, eu tenho um público de muitos jovens, acho isso sensacional, tão lindo... Eu fui pedida em casamento no palco, em Belo Horizonte! Um garotão subiu e disse: “eu não posso me conter, vou pedir você em casamento”. Falei: “Cara, mas aqui não dá, bicho! Não é assim, irmão, não posso me casar”... (risos). Isso é maravilhoso, né?
(risos) É... Resta-nos bebê-la, Elza?
Bebam-me! Se alguém cair de pileque que caia por cima de mim.
Muitíssimo obrigado pela entrevista!
I love you! Aguarda-me!Aguardem-me que estarei chegando pra beijá-los e abraçá-los com muita força e muita energia.
Também te amo, Elza!
DIVULGAÇÃO

Renato Forin Jr.

Ela!!!!!!!!! Que tem “24 horas” de idade, já mastigou e cuspiu a broa que o coisa ruim ofereceu, enfrentou raio e corisco (e venceu), vai do samba ao pop ao jazz sem quebrar telhas, recebeu de Chico Buarque a definição melhor (“dura na queda”) e canta. Jesus, como canta essa mulher...
Diva, mito, lenda, semideusa de semifusas –qualquer reverência vale -, Elza Soares fará o show de abertura do Cabaré, espaço cênico-musical do Festival Internacional de Londrina, o Filo, que está assinalando quarenta anos de existência. Os espetáculos teatrais começam nesta quarta-feira (4 de junho) e vão até dia 22.
A maratona musical tem início no dia 12 de junho, uma quinta-feira. Elza Soares vem com “Beba-me”, gerador de CD e DVD homônimo, um dos melhores projetos do ano passado.
O nome do espetáculo é um trocadilho de “Beija-me” (Roberto Martins- Mário Rossi), um dos primeiros sucessos quando se fez conhecer apenas como sambista.
Ora, ora, com uma voz privilegiada – ou como Paulo Briguet, jornalista e cronista a quem respeito muito escreveu “a garganta que reconstrói a música brasileira” - Elza é tudo o que quiser.
A voz d´Elza. Do grave-rouco – que ela comparou, certa vez, ao ranger das severas cordas que puxam baldes dos poços –ao agudo inesperado. Sem técnica, na raça, no embalo, na emoção. Estampido!
Lançado pela Biscoito Fino, “Beija-me” tem canções de todas as cores, ímpetos e mansidões – de Buarque (“Meu guri”e “Dura na queda”), a Vanzolini (na densa releitura de “Volta por cima”, agora um tango) às reflexões de Wisnik (“Flores horizontais”).
Pra ferver, “Estatuto da gafieira”. Dilatem as pupilas e abram os ouvidos para a performance e quebradas no compasso
Não faltarão – no DVD ela pouco se movimentou no palco, recuperava-se de uma cirurgia complicada – os passos miúdos sobre um salto fino. Deste tamanho assim, ó!. É a segunda vez que Elza Soares se apresenta no Cabaré do Filo; a primeira foi em 1999 e derreteu a todos que lhe jogaram flores simples arrancadas de não se sabe onde...
Cantou e fitou a todos com os olhos quase na vertical: “Quando,seu moço, nasceu meu rebento, não era o momento dele rebentar”. Chico. Pietá sem o menino no colo, sentada em solo sagrado, o palco.
Volta também ao Cabaré Ney Matogrosso, nove anos depois, com “Inclassificáveis”, recém-lançado em CD e DVD pela Emi. Ney reinventa-se com facilidade. Assim, num estalo.
Na sobriedade ou em brilhos artificiais, externos. Incrível! Aos 67 anos, 29 discos-solos, o artista nunca perdeu o prumo. “Inclassificáveis” é dado aos requebros e trejeitos e exuberâncias cênicas. Roupas extravagantes, pop-rock.
Releituras (Cazuza abre e fecha; “O tempo não pára”, “Pro dia nascer feliz), Marcelo Camelo (“Veja bem meu bem”), Caetano e Gil (“Divino, maravilhoso”), Arnaldo Antunes (“Inclassificáveis”) e outros autores tão bons quanto a expectativa em torno da apresentação de Ney Matogrosso.
Ah, sim, o sul-mato-grossense se monta todo nos dias 18 e 19 de junho. “Mal necessário” (Mauro Kwitko): “Sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher”. Dentro do clima: “Sou as mesas e as cadeiras desse cabaré”. Eu adoro essa música!! A-do-ro!!! E não é de hoje...
Citei Elza e Ney como as atrações mais cenicamente volumosas. Ordem às coisas: o Cabaré, o espaço físico, terá capacidade de acolher 1,8 mil pessoas por noite. Dois finais de semana: de 11 (com uma “Festa baile”, assim denominada para comemorar as quatro décadas do Filo) a 13; e de 18 a 21 de junho.
Ocupará – como sempre e esse é o grande barato – um local alternativo. Dessa vez será na zona sul, no cruzamento da Rodovia Celso Garcia Cid com a Via Expressa, zona sul de Londrina. Longe, um bocado longe. A cenografia terá concepção do ator Paulo Braz e do artista plástico Alex Lima.
DONATO, TAKAI, QUINTAL – Tem gente importante no Cabaré. João Donato, salve! O modo de acomodar acordes e melodias ao piano reverberou na Bossa Nova, embora não possa ser considerado um dos precursores do mais importante movimento musical brasileiro.
Esteve próximo de João Gilberto (com quem se apresentou várias vezes no exterior) e Tom Jobim (que sempre o indicava como sendo pianista para substituí-lo em projetos e apresentações intensas). A Bossa Nova tem algo, sim, de João.
Há poesia sonora no tocar de Donato. O jeito acanhado no palco não corresponde à sua arte. A voz pequena, respiração ofegante às vezes.... Prevalece mesmo o autor, o instrumentista.
Silêncio, é preciso ouvir João das “Leilíadas” (maravilha de 1986 que deveria ser relançada em CD) e seus sucessos. Lista básica : “Simples carinho” (com Abel Silva), “Lugar comum, “A paz” (ambas com Gil, “A rã” (com Caetano).
Eu gosto de “Bananeira” (“será no fundo do quintal, quintal do seu olhar, olhar do coração”). João Donato encerra a programação do Cabaré, no dia 21 de junho.
Tem Fernanda Takai com “Onde brilhem os olhos seus”, tributo a Nara Leão. Com releituras bacanas, a vocalista do Pato Fu encontrou proximidades no repertório da eterna musa da Bossa Nova.
Timbres semelhantes. Diferença: Nara subiu e desceu o morro, buscava quem queria cantar e ao seu modo tudo ajeitava. Fernanda, cantora mediana, fez um disco de estréia que deu o que falar. Ouçam e falem bem! Show dia 13 de junho, recomendável a puristas e antenadinhos.
Samba, Fundo de Quintal. Pagode, olha só! Então... A quem souber sambar de verdade – ou marchar, levantar os dedinhos, enfim, qualquer jeito de corpo vale a pena – o grupo carioca, nascido do bloco carnavalesco Cacique de Ramos, vem com pagode de verdade! Quase 30 anos de estrada.
O show “Clássicos do samba” bate cabeça a notáveis comoos Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Arlindo Cruz , Paulinho da Viola, Martinho da Vila e outros. Quais outros? A conferir.
E pensar que por pouco Maria Rita, sambista da hora, não integrou o elenco do Cabaré do Filo. Não deu, fica para a próxima. Tanta gente por vir... Quem, por exemplo? Alguém se arrisca a dizer um nome?
O Cabaré promete noites gozosas. Há acomodações suficientes. Arte e o prazer estão lado a lado. No palco e na platéia. que tal?
SERVIÇO
* 40º FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO DE LONDRINA, com espetáculos teatrais de 4 a 22 de junho.
Shows do Cabaré:
Festa de abertura (dia 11)
Elza Soares (dia 12)
Fernanda Takai (dia13)
Ney Matogrosso (dias 18 e 19)
Fundo de Quintal (dia 20)
João Donato (dia 21)
*Ingressos: R$ 40,00 e R$ 20,00 (estudantes, aposentados,funcionários da Universidade Estadual de Londrina ou da Petrobras). Clientes da Caixa Econômica Federal têm abatimento de 20 por cento.
* O show “Inclassificáveis”, de Ney Matogrosso terá ingressos a R$ 50,00 e R$ 25,00.
* Mais informações pelo site www.filo.art.br
Ary Brandi

Divulgação/Biscoito Fino

Tão bonito e esperando o tempo certo para tornar-se público. Oito anos se passaram desde que “Nem 1 ai”, projeto especial com a voz de Mônica Salmaso alinhada a um grupo de instrumentistas do alto escalão, foi registrado em estúdio.
Sai agora pela Biscoito Fino. Ela e eles: Nailor Proveta (sax e clarinete), André Mehmari (piano e teclados), Rodolfo Stroeter (baixo acústico), Tutty Moreno(bateria) e Toninho Ferragutti (acordeon). Disco de músicos com apurada razão de ser.
Afinidades resultaram num álbum sofisticado em que a relação sonora entre todos os envolvidos é orgânica - subjetivo isso, né?. Quem ouvir “Nem 1 aí” vai entender.
Harmônicos instrumentos, entre os quais a voz de Mônica Salmaso, palavra cantada. Emissão intimista, voz acalentada em técnica e maciez, conjunção eficaz aos sentidos e propósitos do projeto.
Ela e Rodolfo Stroeter, idealizadores. Os dois se dão muito bem juntos. Ele, o produtor. Noves fora, o sexto disco de Mônica Salmaso.
Claro, o porquê de tanto tempo “Nem 1 ai” ficar engavetado. Mônica, em comum acordo com os amigos, preferiu reservá-lo a um momento propício de modo a não atrapalhar o curso de seus discos solos. Tá!
O CD se encaixa perfeitamente à estetica artística da cantora paulista mesmo sendo um trabalho em grupo, idéias sobrepostas. A intérprete faz questão de ressaltar isso. Bacana!
"Nem 1 ai" está disponível a quem o souber merecer.Mônica à frente. Um canto sem auto-louvações ou afoitos incrementos midiáticos, a artista se firma como a voz mais tocante aos sentidos. A personalidade mais discreta e sensata da chamada “nova geração” da música brasileira de qualidade. Marcas indeléveis.
“Nem 1 ai”. Foi assim: o produtor Toy Lima convidou Mônica Salmaso para montar um espetáculo musical para o Heineken Concerts. São Paulo, abril de 2000. Chamou os seus. Show no palco, aplausos.
Entusiasmados, resolveram gravar em estúdio o repertório , acrescidas de “Saudades dos aviões da Panair” (“Conversando num bar”; Milton Nascimento- Fernando Brant), “Joana Francesa “(Chico Buarque) e “Tonada del Cabrestero” (do venezuelano Simon Diaz).
Onze faixas, autores de dialetos diferentes. Gil (“Kaô”, reverência a Xangô com canção de Rodolfo Stroeter), Caymmi (“Lenda do Abaeté”, instrumental), J. Cascata (“Minha palhoça”), Guinga- Aldir ( “Esconjuros”, com trechos não cantados originalmente por Leila Pinheiro, em 1991) Villa-Lobos (“Cair da tarde”), Monsueto (“Mora na filosofia”, tão palatável...), Jobim-Moraes (“Derradeira primavera”). Até cantiga de domínio público (“Bate canela”) tem.
Algumas faixas dialogam-se, no todo não. A obviedade passa longe. Não é um álbum destinado aos acomodados. É para grandes! Iniciados vão pular faixas na ânsia por identificações rápidas.
“Nem 1 ai” é para altos. Qualidade não faz mal a ninguém. Lufã que o diga ou cante “nas asas da Panair”. Marikota, silenciosamente, tudo consente. E o disco roda, roda, roda...
A seguir os principais trechos da entrevista que Mônica Salmaso concedeu ao blog Sintonia Musical, em que fala de “Nem 1 ai” e também da sua trajetória.
É um disco feito por músicos afins ou é muito rasa essa definição?
Exatamente. É exatamente isso.
A sonoridade de “Nem um ai” tem um conceito que poderíamos, subjetivamente, chamar de orgânico ou de forma abrangente com contornos jazzístícos. É por aí?
Acho que sim. Fizemos uma escolha muito livre do repertório. O que conceitua o trabalho é exatamente a junção deste time de músicos à minha voz. Por isso, este trabalho é um projeto de grupo.
Que tipo de marca você procura imprimir em seus discos, Mônica?
Para mim, a única coisa que realmente está presente em todos os meus trabalhos (e que me orgulha muito) é a parceria que faço com estes grandes instrumentistas. Eles imprimem no trabalho suas personalidades musicais e isso o enriquece muito.
Rodolfo Stroeter está sempre por perto de você. Ele é seu alter ego musical?
(risos) Ele é o produtor musical que melhor entende o que eu quero fazer porque a gente vem trabalhando desde o (disco) “Trampolim”. Isso ajuda muito o trabalho.
Reprodução

Como anda sua carreira? Que tipo de público você agregou até agora?
Eu gosto de como a minha carreira se desenvolve. Não sei exatamente que público eu tenho formado porque como não existe um “plano” de exposição na minha carreira, o público se forma espontaneamente através do boca a boca e da internet. Estou, neste momento, vivendo uma experiência muito especial na minha carreira que é uma turnê nacional pelo Brasil. Através do patrocínio do Bradesco Prime (sem o qual isto seria completamente inviável!!) estou viajando com o grupo Pau Brasil por 21 cidades brasileiras com o show do “Noites de gala, samba de rua”. Tenho tido surpresas incríveis ao chegar pela primeira vez a cidades e ver o teatro lotado. Não imagino como isso aconteceu, mas me deixou muito feliz!
Quem é Mônica Salmaso dentro da música brasileira? Onde você chegou até agora?
Fazendo esta turnê eu estou me dando conta de que consegui criar um caminho próprio para a minha carreira. Isso é realmente bonito. Não sei o que isso representa para a música Brasileira… Mas é uma carreira que eu penso ser sólida.
Você se considera uma artista elitista ou caímos naquela máxima de que música boa alcança a todos que queiram?
Eu nunca quis ser elitista, nem acredito que algum artista tenha esta pretensão. Por mim, o ideal seria que todas as pessoas tivessem acesso à minha música para, então, gostarem ou não. Esta turnê que estou fazendo tem ingressos a preços populares justamente por esta razão. Nas experiências que tive ao cantar para públicos maiores e mais variados, o retorno que eu recebi foi sempre de aceitação. Então eu acredito que a sofisticação musical não é impedimento para a identificação com o público de um modo geral. Pensar que deve-se fazer um trabalho simples ou mal acabado para que ele tenha gosto popular, na minha opinião, é preconceito.
A música, ao seu ver, tem uma função social e/ou política ou simplesmente pode-se fazer música apenas como uma manifestação artística?
A música, como a arte em geral, é um veículo de expressão e de identificação. Serve para entreter, para informar e para emocionar. Pode ou não ter uma função social e política. No meu caso, a música tem uma função de “humanização”. Acredito no poder que a música tem de, através da identificação, aproximar as pessoas.
Certa vez você declarou ser uma “trabalhadora braçal”. Gostei...
Eu sou uma formiga, uma cigarra... As duas coisas. Adoro cantar, me divirto e me realizo cantando, mas gosto muito de fazer a produção executiva do meu trabalho. Isso me deixa segura em relação ao que estou fazendo.
O que você tem a apresentar, artisticamente falando, que ninguém ainda percebeu, nem mesmo os críticos?
Não sei... Talvez, nem eu tenha percebido...
Divulgação

Isso em 2007, durante a mostra competitiva do incensado Festival de Montreux, na mostra denominada Montreux Jazz Guitar Competition.
Ficou em segundo lugar, mas o elogio vindo do imenso Benson, presidente do júri, compensou tudo. No mesmo festival, dois anos antes, foi aclamado um dos três melhores guitarristas do mundo. Olha só!
São tantas e fartas e boas palavras adicionadas à arte do guitarrista que renderiam parágrafos extensos.
A visibilidade no Brasil pode ser ainda acanhada – sabe o chamado grande público, então... - , mas nos círculos e circuitos musicais Diego Figueiredo se faz notar.
Tem quatro discos e está divulgando o primeiro DVD, além de um livro (“Novos Padrões”, editora Irmãos Vitale) focado na improvisação
É o que consta no site www.diegofigueiredo.net, onde se pode conhecer melhor a trajetória desse rapaz de 27 anos, nascido em Franca, interior paulista. Bacana a releitura da Caymminiana “Maracangalha”. Entrem lá, confiram a guitarra segura a evocar elementos jazzísticos e, no entanto, brasileira pelo suingue.
Diego tira da música proventos e prazeres. Não tem atividades paralelas. “Vivo de música desde os 13 anos, tenho tudo o que preciso”, afirma.
Começou nos bares da vida, aprimorou-se, intensificou-se. Tocou e dividiu acordes com artistas dos mais diferentes estilos –Vanusa, Al Di Meola, Hermeto Paschoal, Edson Cordeiro, Los Hermanos, Dominguinhos, nobre Paulinho da Viola... Alguns!
Com Belchior – onde você está,homem? – manteve produtiva parceria. “Fui parceiro dele por quatro anos, tocando, gravando, compondo e viajando. Foi uma ótima experiência”, afirma.
O exterior aclama melhor a música instrumental brasileira. Máxima! Vira e mexe, Diego vai a países tão distantes quanto o reconhecimento que deveria ter no próprio país.
Onde é requisitado ele vai. Perto ou longe, Diego Figueiredo se faz valer pela competência. Os elogios – inclusive da tal crítica especializada – que o digam. A estrada está sendo bem pavimentada. Que seja longa!
A seguir, os principais trechos da entrevista que o guitarrista Diego Figueiredo concedeu ao blog Sintonia Musical.
A que você, Diego, se propõe como músico?
Sou um instrumentista e tento traçar meus objetivos dentro do possível. Atualmente, o cenário da música instrumental brasileira está crescendo e se difundindo. Acredito que consegui conquistar um espaço maravilhoso - nacional e internacional - que vem crescendo a cada dia.
Sua sonoridade tem "sotaque" brasileiro?
Sim, apesar de eu puxar um pouco para o jazz, o que requer conhecimento e não só brasilidade...
Qual seria sua característica principal como instrumentista? Podemos falar em estilo?
Estudei vários estilos, tive várias escolas.Toquei em bandas de baile, bares, acompanhei artistas, fiz jingles, gravei para muitas pessoas...Tecnicamente eu me formei em violão clássico, estudei jazz e MPB. Nasci com meu pai tocando choro e samba canção. Tudo isso, aliado a uma técnica bem particular de tocar a guitarra sem palheta, forma meu estilo.
A noite é a melhor escola para os artistas da música. No entanto, você tem base teórica, não é um músico "intuitivo". O que prevalece ao tocar: a técnica, a improvisação, ou você é adaptável às circunstâncias?
Sou adaptável às circunstâncias desde que a música fique bonita e agradável de se ouvir.
O Brasil não é um país muito ligado à música instrumental, certo? Muitos artistas obtiveram reconhecimento maior lá fora para depois serem "acolhidos" aqui. Seria esse seu destino?
Isso já está acontecendo comigo, mas acredito que a música instrumental no Brasil está se fortificando. Artisticamente falando, a música instrumental é a música mais rica.
Você consegue viver de música apenas, digo no sentido financeiro?
Sim. Desde os 13 anos de idade eu vivo de música. Hoje tenho tudo o que quero e preciso. A diferença do músico e de outras profissões é que não sabemos quanto vamos ganhar no próximo mês. Pode ser R$ 1 mil ou R$ 50 mil... Essa é nossa vida...
Várias personalidade musicais do Brasil e do exterior exaltam seu talento. Talvez o mais contundente elogio veio de George Benson que o chamou de "monstro da guitarra". Como você processa tudo isso?
Para mim é uma honra e um prazer muito grande ouvir isso de pessoas como George Benson, Pat Metheny, Al Di Meola e tantos outros artistas que realmente mudaram a história da música mundial. Eu me vejo sendo reconhecido pelo que faço de melhor.
Renato Forin Jr.

Foi bom, sim! Eu esperava mais. Mais intensidade, menos técnica, mais presença cênica, menos músicas conhecidas, mais interação. Ela não soube, não quis, não pôde ou não pode mais oferecer a não ser voz – excelente, mesmo acomodada em registros médios.
Gal Costa fez um show sem alma na última quinta-feira, durante apresentação de um condomínio horizontal da Teixeira Holzmann Empreendimentos Imobiliários, em Londrina. Um luxo! Para convidados, apenas.
Gal, né? Emoção aquietada em algum lugar. Mas a voz, ainda fascina: emissão clara e alguns agudos calculados a serviço de um repertório que todos os convidados da construtora sabiam na ponta da língua.
Aí é que está: adiantou esticar o microfone para público fazer corinho – e boa vontade dos presentes não faltou – se a “maestrina” parecia um pouco desmotivada?
Cantou bem, agradeceu a cada aplauso ao final das músicas sem distinção de gênero: “muito obrigada”, “obrigado”, “obrigada”,“obrigado".
De nada! Impossível não questionar o porquê tamanha voz sequer modular, dar um solavanco jazzístico ou mesmo sincopar. A voz cantou. Apenas cantou. Bonita voz, senhora! Encorpada, emissão maravilhosa.
Pose de diva – e isso ela é, pelo conjunto e duração da obra - quase estática a cantar e cantar e cantar. Como quem liga na tomada uma enceradeira para lustrar.
Brilhar, brilhou. Cantar, cantou. Emocionar... máquina sois, enceradeira! Gal, seu nome é Gal!Mulher, cantora imensa, sai um pouco desse céu e vem brilhar mais perto.
“Voz e violão”, o nome do show. Ou “um pequeno concerto com canções de diversos autores”, conforme definiu nas poucas vezes em que se comunicou com o público. Nas cordas, Luiz Meira, habilidoso músico. A voz pertenceu a quinze músicas, uma hora e meia e um bis sem sair do palco... É, foi assim!
Primeira canção: “Eu vim da Bahia” (Gilberto Gil), olha só quem está no palco, gente! Segunda: “Azul” (Djavan), dedos estalando para marcar o contratempo, hum... Terceira: “Meu bem, meu mal” (Caetano Veloso), meu mar e minha mãe, meu medo...
Quarta, quinta, sexta e por aí vai. Caymmi, Buarque, Barroso, Jobim, Moraes. Moreira e Abel Silva vieram dar um refresco em “Festa do interior”. “Ninguém matava, ninguém morria...” Bem no clima.
“Vapor Barato” (Jards Macalé- Waly Salomão), bela. Momento em que pôde demonstrar um pouco – um pouco – da sua capacidade vocal. Batemos palmas com vontade.
E ela já engatou a próxima. Deixasse a gente aplaudi-la como merece, poxa!Você merece, Gal! “Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito, exijo respeito, não sou mais um sonhador”, bacana quando cantou “Samba do grande amor”. Verdade!
As tropicalistas “Baby” e “Divino, maravilhoso”, ambas de Velô Tão bem cantadas apenas. Atenção para o refrão: “é preciso estar atento e forte”. “Sorte”, bom resgate. Gostei dessa. “Tudo de bom que você me fizer/ faz minha rima ficar mais rara”. Levada boa de Luiz Meira. “Você me dá sorte, de cara”.
Homenagem aos 50 anos da Bossa Nova. Em nome de João Gilberto, o formatador. “Fui radicalmente influenciada”, disse. Três: “Chega da Saudade”, “Wave” e “Desafinado” – ela é afinadíssima. E canta. Apenas canta.
Permitiu-se acompanhar com a leveza de John Pizzarelli, cujo show de abertura foi marcado pelo jazz com frescor. Tocou e cantou –acompanhado do trio – canções de Sinatra, Bossa Nova e Beatles.
Pizzarelli, músico e intérprete ítalo-americano, mostrou-se tão competente quando simpático à platéia. Deu bom recado. Vou comprar um disco dele! Ah, sim,a parceria de Pizzarelli com Gal Costa: “Corcovado”.
Pronto, acabou! Ela saiu do palco, dirigiu-se ao camarim de onde saiu de fininho. Foi-se embora para o lugar onde gosta de se esconder: nela mesma.
Tanta gente queria vê-la, dar-lhe calor, esquentá-la com palavras afáveis e elogios. Não quis. Direito dela. Foi-se embora sem dizer adeus!
Da próxima vez, Gal, deixa a gente sentir sua alma no palco. Ao menos no palco.
Renato Forin Jr.

Festa e Entrevista: Virgin e Jô Mistinguett
ATUALIZADOhá 7h
ATUALIZADOhá 16h